quarta-feira, 6 de junho de 2012

O Hezbollah





O Hezbollah tem bandeira própria, sistema de comunicação independente, escolas para alunos de todas as idades, hospitais, creches, uma rede de TV que serve como porta-voz da entidade e até um time de futebol - o Al Ahed, atual campeão. A organização controla ainda a segurança do aeroporto de Beirute, além de possuir polícia, Exército treinado e bem armado, membros no Parlamento, heróis nacionais, política externa independente e, acima de tudo, um território autônomo que pode ser considerado uma espécie de  área dominada .


Já há algum tempo, a organização xiita libanesa tornou-se mais relevante internacionalmente do que o país onde tem sua base. Em qualquer livraria ou jornal do Ocidente ou do Oriente, é mais fácil encontrar a palavra "Hezbollah" do que "Líbano".


A área dominada pelo Hezbollah tem como centro o distrito de Dahieh (vem de al-Dahiya al-Janubiya, que quer dizer "subúrbio do sul"), que em muitas partes ainda é um canteiro de obras de reconstrução, pois teve muitos edifícios bombardeados na guerra de 2006 com Israel.


A  área dominada  engloba a maior parte do sul de Beirute, uma região majoritariamente xiita, e outras cidades e vilas do sul do Líbano, como Khiam, Bint Jbeil e Nabatieh. No Vale do Bekaa, o grupo domina Baalbek, conhecida internacionalmente por suas ruínas romanas. Os principais aliados da organização são a Síria e o Irã, enquanto o Líbano busca estreitar relações com os EUA, França e outros países árabes.


A primeira diferença de Dahieh para as demais partes de Beirute é quem exerce o controle sobre o que as pessoas fazem. Para um jornalista trabalhar no Líbano, basta dizer no aeroporto que é um sahaf (jornalista, em árabe) e, uma vez dentro do país, ir ao Ministério da Informação. Com o passaporte, uma carta de apresentação do jornal, um formulário e duas fotos, o repórter recebe uma credencial que, supostamente, permite a ele trabalhar em todo o país. Mas não em Dahieh.


Para trabalhar na área do grupo xiita, é preciso dirigir-se ao escritório de informação do Hezbollah. Motoristas do centro de Beirute, de preferência xiitas e que estejam acostumados a trabalhar com a imprensa, levam os jornalistas até um prédio comum de Dahieh. Ali dentro, em um dos andares há uma placa amarela (cor do grupo) com os dizeres "Hezbollah Media Office", acompanhado do símbolo da organização.


Funcionários da organização encaminham o jornalista para uma sala com quatro aconchegantes sofás, onde uma TV de plasma fica ligada na Al Manar - a rede de TV do Hezbollah. Em seguida, uma mulher com a cabeça coberta aparece e, em um inglês perfeito, pede para o jornalista preencher um formulário, entregar uma foto e o passaporte para que eles tirem cópia. A funcionária do Hezbollah pergunta ainda qual o tema da reportagem e o que exatamente se pretender fazer em Dahieh.


Diferentemente do que ocorre no Ministério da Informação do Líbano, que dá a credencial imediatamente, o Hezbollah diz que precisa de 48 horas para fazer uma investigação sobre o jornalista e o órgão para o qual trabalha. O repórter do Estado já espera há cinco dias e, mesmo ligando diariamente, sempre ouve a mesma resposta. "Ainda não tomamos uma decisão."


Sem ter a autorização, fica-se proibido pelo Hezbollah de entrevistar moradores e membros do grupo em Dahieh. A única saída é passear pela área como turista. Como em todas as cidades controladas pelo Hezbollah, os postes de Dahieh sempre têm as bandeiras amarelas com o símbolo verde do grupo. Também há fotos do que a organização chama de mártires - militantes que foram mortos por Israel ou que morreram em ações contra israelenses. A maior parte dos edifícios é modesta, mas há alguns prédios luxuosos.


No Líbano, é raro ver uma mulher de burca: elas circulam apenas com a cabeça coberta. E mesmo em Dahieh, jovens usam jeans justos, óculos escuros e cabelos soltos. Na principal avenida, há uma moderna academia de ginástica onde homens e mulheres se vestem com roupas esportivas que seriam consideras comuns no Brasil. Há uma grande quantidade de propagandas da rede de fast-food KFC, que possui uma filial na área e outras no sul do Líbano. A única diferença é que a comida servida no KFC de Dahieh é halal (preparada seguindo as orientações islâmicas).


No meio do bairro há um parque de diversões, também ligado ao Hezbollah. Postos de doação de dinheiro para entidades assistenciais da organização estão espalhados por toda parte. A polícia libanesa não está presente em Dahieh. São os integrantes do grupo que decidem, entre outras coisas, se o motorista pode cruzar determinada avenida ou estacionar o carro. No distrito, os membros do Hezbollah não têm medo de mostrar a cara. Eles andam com um colete cáqui e carregam comunicadores portáteis. No sul do Líbano, eles são mais discretos.


Uma das principais marcas de Dahieh é a rede de TV Al Manar. Sua sede anterior foi destruída por Israel. Mas eles já ocupam um novo prédio, todo de vidro e de arquitetura moderna. A programação vai de novelas a telejornais. Em determinadas horas, é difícil dizer que se trata de um canal do Hezbollah. Mas, nos intervalos comerciais, são comuns hinos contra Israel, além várias imagens louvando o líder do grupo, xeque Hassan Nasrallah, e Imad Mughniyeh, que era o principal comandante militar da organização.

HERÓI NACIONAL

Morto num atentado em Damasco, em fevereiro, Mughniyeh era uma figura quase secreta dentro do Hezbollah até morrer. Quem insistia na existência e no poder de Mughniyeh eram os serviços de inteligência de Israel e dos EUA, que o acusaram de envolvimento em ações como o seqüestro de um avião da TWA nos anos 80. E eles estavam corretos.


Atualmente, o comandante militar do Hezbollah está enterrado em Dahieh, onde seu corpo foi recebido como o de um herói nacional. Um memorial foi aberto para ele em Nabatieh, no sul do Líbano. No local, há uma exibição de tanques israelenses que foram destruídos pelo Hezbollah na guerra de 2006, roupas de soldados israelenses, baterias antiaéreas do grupo e mísseis Katiusha iguais aos que foram lançados contra o norte de Israel.


Diante de um cubo de vidro, onde estão conservadas as roupas que Mughniyeh vestia, seus óculos, sua escova, agenda e todo o escritório que ele tinha em seu esconderijo em Damasco, crianças de menos de 12 anos prestam juramento no qual se comprometem com a resistência contra os israelenses. Depois, assistem a três filmes sobre o herói nacional da  área dominada . Ao final da projeção, as crianças podem comprar bugigangas com imagens de Nasrallah, Mughnyeh e do Hezbollah na loja do memorial. Um guia do local explicou que as crianças estudam em uma escola do grupo. Afinal, o governo libanês não tem condições de dar educação a todos.

Uma reportagem do jornal governista e anti-Hezbollah Now Lebanon, publicado na internet, afirma que o governo libanês tem planos de intervir em Dahieh para combater a criminalidade, que estaria crescendo. Consultada pelo Estado, a professora da Universidade Americana de Beirute Mona Herb, que estuda a região, disse ser improvável que esse tipo de ação ocorra. Quando, em maio, o governo tentou intervir no sistema de comunicações do Hezbollah e acabar com o controle que o grupo tinha sobre o aeroporto, precisou recuar. Membros do grupo tomaram as ruas das áreas sunitas de Beirute, em uma clara demonstração de força. A desocupação só ocorreu dias depois, após acordo.

O Hezbollah não existia quando Israel invadiu o sul do Líbano no fim dos anos 1970 para combater guerrilhas palestinas. Nos anos seguintes, o grupo xiita, ainda sem nome definido, começou a emergir nesta área libanesa. Três motivos levaram à criação do Hezbollah.


1) A Revolução Islâmica no Irã, que decidiu apoiar os xiitas libaneses e treiná-los para lutar na guerra civil e também contra Israel.

 A marginalização dos xiitas na sociedade libanesa, dominada, até os anos 1970, pelos cristãos maronitas e, em menor escala, sunitas e druzos. 3) A ocupação israelense do território libanês.


Ao longo dos anos 1980, o Hezbollah foi acusado de uma série de ataques e sequestros de estrangeiros. O grupo estaria inclusive por trás dos mega atentados contra os marines americanos e a embaixada dos EUA em Beirute – a organização nega envolvimento. Na década seguinte, lutou contra os israelenses e seus aliados cristãos e xiitas (isso mesmo que vocês leram) da milícia denominada Exército do Sul do Líbano.


Diferentemente do Hamas e outros grupos palestinos, o Hezbollah jamais realizou um atentado terrorista suicida em Israel. O grupo é acusado de ter cometido dois ataques em Buenos Aires, contra a Amia e a Embaixada de Israel. Muitos analistas, eu incluído, acreditam que na verdade as ações possam ter sido um acerto de contas da Síria com Menem (que é sírio), com a participação de neonazistas argentinos – há um em cada esquina de Buenos Aires.


No ano 2000, em meio à pressão domestica, Israel desocupou o sul do Líbano, permanecendo nas Fazendas de Shebaa – os israelenses argumentam que o território é sírio. A Síria e o Líbano dizem ser libanês. A ONU inicialmente dizia ser sírio, mas hoje investiga para definir. O certo, apenas, é que não se trata de território israelense.


O Hezbollah, nestas duas décadas de ocupação de Israel, nasceu e cresceu. Mais complicado, o Irã, nos últimos anos, elevou sua influência no Oriente Médio depois de os EUA terem ajudado Teerã ao derrubar Saddam Hussein, maior inimigo da história iraniana, do poder e substituí-lo por um regime próximo dos iranianos. Assim, o grupo libanês passou a receber mais ajuda. Em 2006, provocou Israel ao matar e sequestrar soldados israelenses, provocando uma retaliação que arrasou partes do Líbano, e provocou a morte de dezenas de civis e militares do outro lado da fronteira, inclusive em Haifa.


Hoje, o grupo xiita é aliado de facções cristãs libanesas moderadas, incluindo o líder cristão maronita Michel Aoun e o presidente Michel Suleiman. Além da milícia, possui rede de TV (Al Manar), creches e hospitais. As regras políticas libanesas também garantem aos xiitas (e todas as religiões) cadeiras no Parlamento. Estas acabam divididas entre o Hezbollah, e os seus aliados AMAL. Os xiitas têm direito ainda a determinados ministérios.


Não dá para saber qual o percentual de xiitas no Líbano, pois é proibido realizar censo. Acredita-se que seja pouco mais de um terço, superando os cristãos maronitas como a maior pluralidade do país. A quase totalidade destes xiitas, e muitos cristãos, apóiam o Hezbollah – com fraco suporte entre sunitas e druzos. Eliminar o Hezbollah implica em destruir toda esta parte da sociedade libanesa. Mais fácil seria transformar o Hezbolah. E a única forma seria pressionar o grupo para ser desarmado, integrando suas forças ao Exército libanês. O difícil é fazer isso em um momento em que se fala de guerra em Israel.


Os israelenses contribuiriam bem mais se saíssem das Fazendas de Shebaa, tirando o principal argumento do grupo xiita para carregar armas. Um novo conflito serviria apenas para destruir Beirute e causar grandes estragos até mesmo em Tel Aviv. E qual o objetivo? Uma nova guerra em 2014, como uma Copa do Mundo? Insisto, Israel já ocupou o sul do Líbano por mais de 20 anos e não conseguiu nada. Na época, tinha apoio de parte da população local. Também tentou bombardear o sul do Líbano, em 2006, destruindo quase todas as vilas perto da fronteira. Tampouco deu certo. Uma nova guerra? Não dará certo. O Hezbollah continuará existindo.

O Líbano, depois de ver parte de seu território ser arrasado em uma guerra justamente contra Israel em 2006, aos poucos retorna aos tempos de “Suíça do Oriente Médio”, como era descrito o país até os anos 1970 por seu sólido sistema bancário. O PIB, no ano passado, registrou um crescimento de 8%. E o número não pode ser atribuído ao conflito de quatro anos atrás, já que as perdas daquele ano foram recuperadas no seguinte. Para este ano, a Economist Inteligence Unit prevê uma elevação um pouco menor, de 6%.


Segundo relatório do FMI, “devido a uma rígida supervisão das  finanças, o setor financeiro doméstico do Líbano teve pouca exposição à crise internacional e continua líquido”. Os bancos continuam recebendo remessas de países árabes ricos em petróleo e, acima de tudo, da rica diáspora libanesa, que inclui Carlos Slim – o homem mais rico do mundo, segundo a Forbes, que é filho de libaneses. Estes expatriados, segundo o Banco Mundial, são fundamentais para a economia libanesa. Não apenas pelo envio de dinheiro, como também por suas viagens ao país, aquecendo o turismo.


Atualmente, os libaneses estão na fase de acertar as suas diferenças. Porém há forças externas e internas que não fazem parte deste diálogo e que têm enorme possibilidade de provocar uma nova onda de violência.



Abaixo, seguem as facções existentes no Líbano.


Coalizão governista 14 de Março – Composta pela ampla maioria dos sunitas e conta com o premiê Fuad Siniora. Seu líder é Saad Hariri. Integram a aliança várias facções cristãs, com destaque para as Forças Libanesas, do radical Samir Gaegea. A maior parte dos drusos, sob o comando do líder feudal Walid Jumblat, também faz parte da coalizão. Não há xiitas. O apoio internacional é da França, Estados Unidos e países árabes, em especial a Arábia Saudita. O principal inimigo externo é a Síria.


Oposição, denominada 8 de Março – Quase todos os xiitas, representados pelo Hezbollah e Amal, integram esta aliança. Calcula-se que mais ou menos metade dos cristãos, sob a liderança do populista Michel Aoun, são opositores. Alguns drusos e poucos sunitas também estão neste barco. Os aliados externos são a Síria e o Irã. O principal inimigo é Israel e, em menor escala, a Arábia Saudita.
Agora, seguem algumas curiosidades.


1 – Hoje os sunitas são os principais inimigos da Síria. Porém, até bem pouco tempo, eles eram aliados. Rafik Hariri, o pai de Saad, tinha uma casa em Damasco e rompeu com o regime de Bashar al Assad apenas em 2004, após anos de amizade. Hoje, ele é aliado de Gaegea, a quem deixou na prisão por onze anos. O líder cristão que, na guerra civil, chegou a cercar e tentar matar o druso Jumblat, que senta sem problemas ao seu lado em vários atos no Líbano.


2 – Gaegea era aliado de Israel na guerra civil libanesa, enquanto os seus colegas de coalizão sunitas foram justamente os que permitiram que a OLP tivesse um Estado dentro do Estado no Líbano.


3 – Michel Aoun, o cristão aliado do Hezbollah, passou 15 anos no exílio porque era contra a influência síria no Líbano. Quando voltou ao país, em 2005, graças à saída das tropas de Damasco, ele se aliou justamente ao grupo ligado ao regime de Assad.


4 – A Amal e o Hezbollah, que hoje são amigos, já travaram várias batalhas entre eles no passado. Aliás, os xiitas, que hoje adoram defender os palestinos, já combateram bastante grupos ligados à OLP no passado.


Portanto, não se assustem se, em breve, todas essas alianças se transformarem completamente. Por exemplo, o Hezbollah e os sunitas ensaiam uma aproximação. Os cristãos, que são ultra divididos, iniciaram um diálogo para superar as diferenças. Por outro lado, a Al Qaeda está presente no Líbano e é um novo fator.


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